Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi

      Localizada ao norte da capital capixaba, entre a divisa dos municípios de Aracruz e Fundão até a foz do Rio Doce em Linhares, o Parque Nacional Marinho de Santa Cruz (Refúgio da Vida Silvestre de Santa Cruz e APA Costa das Algas) abriga a Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi.

      Desde criança ouço histórias da minha mãe sobre as proezas de Augusto Ruschi, patrono da ecologia nacional, na defesa de ecossistemas e na disseminação de informação para a preservação de algumas espécies no estado do Espírito Santo.

      Cientista, agrônomo, advogado, naturalista, ecologista, conquistou reconhecimento internacional, virou nota de “500 cruzados”. Uma personalidade forte que assumia diversos projetos e que lutava por causas ecológicas muito antes do assunto surgir na mídia. Assim, foi enorme o prazer de conhecer seu filho, o também biólogo e pesquisador, André Ruschi.

      Quando cheguei à Estação Marinha, após uma viagem de carro de três horas a partir de Guarapari, ainda eram 7:30 da manhã e os funcionários estavam preparando os bebedouros para os beija-flores.  O céu estava nublado e o clima um pouco frio, assim não demorou muito para que dezenas de aves viessem se alimentar da água com açúcar para repor o gasto energético. Literalmente é só sentar e apontar a câmera lentamente para frente, o resto é com as aves: inúmeros saíras e beija-flores pousam e desfilam para as fotos.

      André Ruschi é uma atração à parte. Foram horas de entrevista, debates sobre política, ecologia, histórias sobre o seu pai. Enquanto caminhávamos pela estação, ele me demonstrava como aquele lugar era único: embaixo de cada pedra na praia havia quatro ou cinco espécies de invertebrados, no mangue espécies adaptadas ao mar e ao vento intenso, na mata aves, répteis e insetos. O tempo voou enquanto eu aprendia sobre aquele ecossistema.

      As algas calcárias se amontoam na praia e a sensação é que estamos em um lugar intocado pelo homem. Elas possuem a função de fixar o CO2 e, diferentemente das outras algas, são as únicas que mineralizam o gás na forma de carbonato. Como o crescimento é de 0,5 a 1mm/ano, os exemplares pequenos têm em média 40 anos e os médios algo em torno de 200 e 300 anos, explica o biólogo.  Estima-se que nesta área do Espírito Santo, desde Guarapari até São Mateus, encontra-se o maior banco de algas calcárias do mundo, com capacidade de assimilar até cinco por cento de todo o CO2 do planeta.

     Um dos fatores que contribuiu para a formação deste ecossistema marinho privilegiado é a sua posição estratégica na rota da Corrente do Brasil que vem da costa do nordeste. Ao sul de Abrolhos, em frente à Santa Cruz (Aracruz - ES), essa corrente forma um giro ciclônico de mais de 70 quilômetros de diâmetro, denominado Giro de Vitória e possui um núcleo de água fria rica em nutrientes e espécies que, ao se libertarem desse movimento de água, povoam o litoral do Espírito Santo e Cabo Frio, no RJ.

      Todos esses fatores criaram um ecossistema lindo e único, com Mata Atlântica diferenciada, mangue preservado e praias paradisíacas repletas de espécies de crustáceos, peixes e aves. Os ecossistemas naturais estão fortemente pressionados em todo planeta, e com os ambientes marinhos o quadro nunca esteve tão perturbador. Os ecossistemas marinhos estão constantemente ameaçados. Lagoas costeiras, manguezais, praias e áreas costeiras submersas vêm sendo agredidos e devem ser protegidos.

      A mística ideia de que os oceanos eram inesgotáveis foi caindo por terra a medida  que novos estudos apontaram para a relação dos mares com os ciclos climáticos e outros processos naturais em escala global. E Augusto Ruschi foi dos  pioneiros em compreender isto.

Para se hospedar na estação, a qual está aberta para o público geral e pesquisadores, deve-se agendar com antecedência de pelo menos duas semanas (ver contato abaixo).

      Além de uma razoável área para camping, a Estação possui instalações com 2 dormitórios coletivos que podem acomodar até 66 pessoas, dois quartos menores para até 6 pessoas cada e uma  suíte também para 6 pessoas. Ela possui ainda16 banheiros, água quente e fria com qualidades minerais, computador, telefone, biblioteca , laboratório, coleções didáticas, viveiro florestal e um vasto arquivo de informações ambientais, 8 ha de floresta virgem, 7 ha de área em recuperação, 6 ha com experiências de agricultura orgânica de plantas medicinais, 2 km de trilhas de floresta Atlântica.

       Dificilmente encontraremos uma quantidade grande de barracas montadas, pois o público  da reserva ou é de pessoas que estão de passagem, ou moradores locais que estão passeando no final de semana, ou fotógrafos e pesquisadores ávidos por espécies da Mata Atlântica. Assim, é uma aventura de descobertas e conhecimento sem a badalação de alguns pontos turísticos e sem ruídos da urbanização. A área do camping é bem segura e coloca o visitante em contato real com a natureza do lugar desde o primeiro fecho de luz do dia.

 

Atualização:

 

      Um dos biólogos e ambientalistas mais influentes e combativos do Espírito Santo, André Ruschi, morreu, aos 60 anos, no hospital em que estava internado há mais de 20 dias, em abril de 2016. Ruschi voltou a ganhar notoriedade após alertar sobre os resíduos tóxicos no Rio Doce depois do rompimento de uma barragem da mineradora Samarco, em novembro de 2015.

Hoje a Estação está sob coordenação de Gabriel Ruschi, filho de André. A diária para camping está custando R$ 25,00 e R$ 35,00 a diária para no alojamento.

 

      Veja a nota do Fórum Capixaba em Defesa da Bacia do Rio Doce na íntegra:

 

"Foi com muita tristeza que o Fórum Capixaba das Entidades em Defesa da Bacia do Rio Doce recebeu a notícia do falecimento do biólogo André Ruschi, nesta segunda-feira, 04 de abril. Desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), no dia 05 de novembro do ano passado, André Ruschi denunciou incansavelmente as diversas consequências que esse crime ambiental traria para a biodiversidade. Assim que ocorreu o fato, ele exigiu publicamente que a Vale, Samarco e BHP Billiton buscassem reverter os danos causados, cobrou o comprometimento do Governo Federal e dos Estados do Espírito Santo e Minas Gerais com o meio ambiente e o ser humano, além de conclamar a sociedade civil a se mobilizar.

 

O biólogo foi um dos primeiros a alertar que milhares de quilômetros do litoral capixaba seriam contaminados por resíduos tóxicos, que esses mesmos resíduos atingiriam áreas de conservação marinha, que esse crime ambiental significava a morte do Rio Doce, entre tantas outras atrocidades. André Ruschi morreu, mas seu desejo de não ver o crime de Mariana cair no esquecimento, continuar impune e sem possibilidade nenhuma de ter suas consequências revertidas continua vivo na atuação do Fórum Capixaba das Entidades em Defesa do Rio Doce e de muitas outras iniciativas que compartilham desse sonho em comum".

 

 

Mais Informações :

- SITE OFICIAL DA ESTAÇÃO MARINHA: www.ruschicolibri.com.br

-    GUIA ESPECIALIZADO EM OBSERVAÇÃO DE AVES:  Gustavo Magnago: gmagnago@msn.com

Texto e fotos: Gualter Pedrini

Matéria publicada originalmente em 2014

André Ruschi recebia atentamente todos os visitantes.

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