BELEZA RARA 

As joias escondidas de Arraial do Cabo - A capital do mergulho

Texto e fotos: Gualter Pedrini - Matéria originalmente publicada na revista GEO

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Galeria: fatores geográficos possibilitam uma rica fauna marinha em Arraial do Cabo: Corais Moles invasores, tartarugas verdes, moreias e peixe-lagarto.

    Oito horas da manha em Arraial do Cabo. Enquanto o vento empurra a areia da praia até a calçada do outro lado da rua em um movimento curvo e diagonal, as ondas quebram com força na Praia dos Anjos. Crianças aproveitam o domingo para colocar o futebol em dia e pescadores há horas trabalham e suas redes.

    O caminho que leva ao cais passa por uma das mais antigas edificações do país, a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, lotada em plena missa de domingo. Do outro lado da rua, reside um obelisco de granito com uma cruz de malta, marca deixada por Américo Vespúcio em suas passagens pela região entre os anos de 1503 e 1504.

     Logo após a chegada do explorador europeu, a disputa pelas mercadorias da região atraiu corsários de diversas nacionalidades. Estes chegaram até se unir a índios locais para piratear embarcações e contrabandear pau-brasil para o exterior. Os truques usados pelos piratas, para desorientar os navios e levá-los a encalhar, são até hoje folclóricos e acrescentam tempero ao clima náutico muito presente na cidade.

Foto: Praia Grande - Arraial do Cabo 

       A Região dos Lagos situa-se em uma faixa da costa brasileira que sofre uma mudança de direção acentuada o que a expõe  ao quase constante vento nordeste e este provoca um movimento ascendente das águas marinhas (Ressurgência). As águas profundas que afloram, não só são bem mais geladas como também ricas em sais minerais e fitoplâncton (minúsculos seres que formam a base da cadeia alimentar marinha).   Em resumo, água fria, mas que possui condições ideais para o desenvolvimento de um ecossistema marinho diversificado e abundante, mesmo com a atuação pesqueira que é influente na cidade até no ponto de vista social e político. Soma-se a isso fato de que a maioria dos pontos de mergulho estarem a menos de vinte minutos de barco e conseguiremos entender o porque da cidade se intitular a "Capital do Mergulho“.

     Quem está acostumado a mergulhar no Brasil sabe que estamos reféns das condições climáticas. E com tantas opções em Arraial, existem alguns pontos com bons mergulhos até naqueles dias de vento forte e instável.

     O Saco do Cardeiro é uma atração a parte. Com sua floresta de corais moles, que mesmo sendo uma espécie exógena (trazida por navios do Pacífico), se adaptou apenas nesse ponto da costa e, na minha opinião, parece que eles pegaram o jeitinho carioca e já são “locais”.

      A Ponta Sul da Ilha dos Porcos é um daqueles locais ideais para foto macro (imagem de pequenos seres). Logo de cara um camarão limpador que é morador do local de longa data, mas que odeia posar para fotos. Estrelas variadas e anêmonas dividem espaço com uma diversidade de minúsculos peixes.

        Nos dias de mar mais calmo, os pontos localizados na extensão da Ilha do Farol são a pedida. A Ponta do Anequim com suas gorgônias infinitas e as Enseadas da Escadinha e da Abobrinha com uma variedade de pequenos espécies, arraias fujonas, cações, budiões multicoloridos, cardumes de olho de cão e uma tartaruga brincalhona que decidiu acompanhar o mergulho.

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       Mas o meu principal objetivo era a Ponta Leste. Quando me disseram que este ponto era habitado por inúmeros nudibrânquios (um invertebrado que parece uma lesma super colorida), não imaginava que teria a oportunidade de fotografar diferentes espécies em condições variadas. No décimo segundo parei de contar.

        Dez em cada dez fotógrafos de vida marinha ficam eufóricos diante de um nudibrânquio. A plasticidade dos seus movimentos, as cores, os pequenos detalhes do corpo, tudo é motivo para uma boa foto. Soma-se a isso o fato de não serem animais que são facilmente encontrados na costa brasileira. Assim cada encontro é muito comemorado.

       O que muitos devem imaginar é que eles pertencem ao filo dos moluscos que incluem alguns dos invertebrados mais bem conhecidos: caracóis, caramujos, mexilhões, ostras, lesmas, lulas e polvos. As conchas de alguns destes animais são populares desde a antiguidade, e algumas culturas ainda as utilizam como ferramentas, recipientes, instrumentos musicais, moeda e decorações.

     Porém, existem classes de moluscos que apresentam concha reduzida, fina, ou totalmente perdida. É nesta categoria que encontramos os nossos nudibrânquios. Eles possuem concha apenas quando muito jovens, dispensando-a na fase adulta, assim o nome nudibrânquio remete a "brânquia nua".

Foto: detalhe do nudibrânquio Flabellina engeli

         A forma de proteção destes animais é a sua característica mais interessante. Ao se alimentar de alguns tipos de esponjas, eles ingerem algumas substâncias irritativas que atravessam todo o sistema digestivo e vão parar na sua superfície e podem ser lançados contra possíveis predadores. O mais surpreendente é que estes compostos químicos podem ser adquiridos pelo próprio muco produzido na boca de algumas espécies, a qualquer hora, sempre que eles precisarem.

      Um tipo de nudibrânquio, mais conhecido como "dançarina espanhola", não somente utiliza para sua própria defesa um composto químico contido na esponja da qual se alimenta, como também o deposita nas cápsulas de seus ovos, auxiliando na proteção até o seu nascimento.

     Esses moluscos tipicamente produzem uma trilha de substâncias enquanto rastejam, contendo mensagens químicas que os outros indivíduos "leêm" através de duas antenas que ficam em cima da região dianteira. Assim, eles podem  transmitir informações sobre as trilhas já realizadas anteriormente no solo marinho, bem como localizam outros indivíduos da mesma espécie, ou liberam substâncias de alerta que servem para avisar os outros sobre possíveis perigos na trilha à frente. E alguns estudos já demonstraram que algumas espécies possuem orientação em relação ao campo magnético da Terra. No Brasil temos pouco mais de 90 espécies registradas. O que pode parecer uma baixa variedade, coparado aos registros de países com menor litoral e mais de 200 espécies catalogadas, remete na verdade o número limitados de estudos nacionais destes animais. Uma das raras pesquisas brasileiras é realizada justamente na Região dos Lagos.

      Nesses últimos mergulhos em Arraial do Cabo, recentemente, fiquei muito surpreso com a variedade e quantidade de espécies que consegui fotografar. Das espécies mais facilmente encontradas, destaque para a Flabellina engeli, de poucos centímetros de comprimento e coloração esbranquiçada. Era uma espécie identificada cientificamente apenas no Caribe e que vem sendo registrada com certa frequência em águas nacionais.

      Uma das mais belas e fotogênicas é a Tambja stegosauriformis, com uma coloração avermelhada e círculos azuis, possui uma toxina que está sendo estudada para o combate ao câncer. Outra espécie, edêmica do Brasil, é a Felimare lajensis que possui esse nome em homenagem a Laje de Santos, onde foi estudada pela primeira vez em 1998, e é a mais comum no sudeste brasileiro.

   

   Foto: detalhe do nudbrânquio Felimare lajensis

      Para mergulhos mais técnicos, o “Lado de Fora”, mais exposta ao mar aberto, é a região com maiores profundidades. É nessas águas que se encontram também os principais naufrágios, grutas e paredões. A Fragata Thetis encontra-se muito desmantelada, apenas alguns elementos de lastro ilustram o naufrágio que marcou a história naval, visto todo o esquema montado em 1830 pelos ingleses que usaram restos de mastro para içar um enorme sino de bronze. Dentro dele, mergulhadores resgataram aproximadamente 80% das moedas do naufrágio.

            O histórico naufrágio do Dona Paula, uma fragata brasileira, afundou quando perseguia um corsário argentino. Outros pontos do Lado de Fora são o lindo Branco da  Camarinha e a Gruta Azul, mística e cheia de histórias e lendas.

            Ou seja, Arraial do Cabo é um daqueles lugares que não se deve ter pressa de ir embora, mas também serve para se passar um final de semana despretensioso. Todos os caminhos da cidade levam ao mar e todos os detalhes remetem ao porque de se dirigir ao mar. Afinal, você está na capital do mergulho.

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Felimare lajensis(2)interagindo com a esponja
Flabellina engeli interagindo com esponja
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espécie_alimentando-se_de_esponja

 

MAIS INFORMAÇÕES:

  1. OPERADORA EM ARRAIAL DO CABO: By Fish Mergulho - Av. Getulio Vargas, 651;Praia Grande-Arraial do Cabo-RJ - Tel. (22)-9847-4453

  2. BANCO DE IMAGENS DE BIOLOGIA MARINHA: http://cifonauta.cebimar.usp.br

  3. LIVRO DE INVERTEBRADOS: Invertebrados - 2ª Ed. 2007;Autor: Brusca, Richard C.; Brusca, Gary J. Editora: Guanabara Koogan

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Se você for um dos sortudos a encontrar um cavalo-marinho ou um peixe-cachimbo, lembre-se de que é importante seguir as regras básicas do bom mergulhador e algumas orientações para não prejudicar ainda mais esses fantásticos seres.

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