Praia do Bonete – Tradição e Modernidade *

Texto e fotos: Gualter Pedrini

                Quase oito horas da manha em Ilhabela, final de semana de inverno com surpreendente mar calmo e sol forte. Nosso barqueiro já nos espera sentado no muro de uma casa de esquina na Praia do Curral, de bermudão, casaco impermeável, chinelo de dedo, uma pele castigada pelo sol e o sorriso de um rapaz que não aparentava ter mais de vinte anos.

                Em quinze minutos já estávamos saltitando por entre as ondas em um pequeno barco a motor, rumo a Praia do Bonete, na região sul da ilha, que pode ser acessada pelo mar, quando a maré permite, ou por uma trilha puxada de aproximadamente 13 quilômetros de pura beleza, com cachoeiras e Mata Atlântica ainda intocada.

                Optei pelo barco por conta do clima favorável. O trajeto é impressionante, com um costão todo talhado em rochas gigantescas que surgem verticalmente do mar e são cobertas por árvores que parecem estar prestes a cair do penhasco de tão próximas da borda. Porém, mesmo distante do centro da cidade, ainda é possível observar construções luxuosas erguidas no meio da mata e formando extensas clareiras.

                É impossível não pensar como aquelas casas foram construídas desafiando a gravidade e os limites das encostas e imaginar se não seria questão de tempo para toda a costeira estar ocupada por mansões.

                Hora ou outra, uma onda salpicava contra o barco e molhava todos. Água fria que também agredia as rochas, formando uma imensa nuvem de maresia iluminada pelos primeiros raios que passavam por entre as nuvens.

                Após  40 minutos, chegamos a Praia do Bonete.  Areia branca, cercada por dois morros, Mata Atlântica aos fundos e um rio de água transparente desembocando em um dos extremos. Eleita por diversas vezes uma das praias mais lindas e apaixonantes do  país, é o deleite para casais e aventureiros que querem se isolar por entre a maior e mais estruturada comunidade caiçara de Ilhabela, com quatro pousadas, camping, restaurantes. Mas tudo em um clima rural, com fortes influências da cultura dos pescadores locais: casais de idosos sentados na frente da casa e de porta aberta, crianças correndo atrás do cachorro, homens costurando suas redes entre uma conversa e outra com os turistas.

                Enfileirados na areia, com a polpa apontando para o mar, canoas multicoloridas demonstram o domínio da arte ancestral indígena de esculpir canoas em um único tronco de madeira. A própria denominação "caiçara" surgiu no século XVI, referindo a população  que surgiu pela miscigenação entre índios e portugueses e que optaram por viver longe das vilas comandadas pelos jesuítas e pela coroa, no litoral do Paraná ao Rio de Janeiro.

                Fomos recebidos por André Queiroz e Edson Lobato, que fazem parte do grupo de moradores e frequentadores da praia que estão mobilizados para trazer atividades  sustentáveis  para a comunidade e estão preocupados com o projeto, que está em processo de aprovação, o qual mudaria a classificação da área de zona rural para zona urbana. Isto possibilitaria a construção de condomínios e hotéis em áreas que hoje estão desabitadas.

                Apesar do acesso difícil, a modernidade já chegou no Bonete dentro de vários aspectos. Com a mobilização dos moradores, hoje a vila conta com orelhão, internet, escola, posto de saúde com enfermeira residente. Tudo isso construído tendo apenas os barcos como meio de transporte. Assim, André Queiroz argumenta que a urbanização da área irá trazer os conhecidos super empreendimentos imobiliários que irão esmagar o que ainda resta da  cultura e das características locais.

                Tal preocupação impulsionou os moradores do Bonete e também das praias de Castelhanos e Jabaquara a iniciar uma série de protestos na ilha, desde a abertura da 40ª Semana Internacional da Vela, um dos principais eventos do município, até a audiência pública que ocorreu no dia 12 de agosto e contou com a presença de mais de 500 moradores e representantes tanto da prefeitura, das comunidades  e da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo.           

                O último Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) foi elaborado em 2004 e hoje está sendo discutido alterações, mediante o crescimento demográfico e econômico da região. A Prefeitura de Ilhabela apresentou uma proposta de mapa que transformaria algumas zonas rurais em urbanas questionando a já existência de bares familiares e pousadas de pequeno porte nas praias. Em contrapartida, diversos membros de entidades e pessoas da sociedade civil apontam ambivalência e pontos falhos nos decretos federais e estaduais que abordam o assunto e questionam a integridade das comunidades tradicionais e vocação da ilha para a preservação ambiental.

                Depois de horas de conversas e explicações, fui dar uma volta pela praia, conhecer os moradores e sentir o "clima local". Naquela hora havia uma meia dúzia de garotos e garotas sentados na areia, conversando, paquerando, curtindo o sol em pleno inverno. Haviam outros na água, sentados em suas pranchas, tentando a sorte mesmo nesse dia de mar calmo.

                Todos  se mostraram preocupados com a qualidade de ensino que recebiam, por conta das constantes faltas dos professores nos dias de mar agitado. E como planejavam cursar faculdade no continente e voltar para a comunidade como professores, advogados e arquitetos. Mesmo morando fora, querem voltar nos finais de semana e encontrar esse "paraíso intocado", sem estradas, sem condomínios e a água praticamente exclusiva para os surfistas.

                Descobri que, mesmo com a chegada da internet  e das redes sociais, a grande maioria dos jovens passa horas na água surfando, pois durante o ano todo a praia recebe ondas  cavadas, rápidas e bem mais fortes que as do restante litoral norte.

                Os antigos moradores da praia preocupam-se mais com possíveis emergências médicas e gostariam de uma estrada em bom estado de conservação para ser usada apenas em caso de urgência médica. Quando questionados sobre o uso da mesma para fins turísticos, todos se posicionam contra, pois temem a invasão de suas ruas por ambulantes e carros de som. De uma forma até ingênua, acreditam que a estrada poderia ser interditada e usada apenas pelos 240 moradores da comunidade, mesmo com toda a especulação imobiliária pairando sobre eles.

                Em meio a tantas entrevistas encontramos o senhor Benedito, com 86 anos de Bonete, descansando em sua rede com o cachimbo no canto da boca e um sorriso largo. Entre opiniões sobre o modo de vida isolado, explicações sobre como salgar um peixe e especulações sobre a novela das oito, ele é o exemplo de que comunidades tradicionais podem se modernizar sem perder suas características, de que talvez os pescadores e surfistas daquela praia paradisíaca não estejam isolados e sim protegidos da cidade.

*Matéria publicada originalmente na Revista Ecoturismo – 2013

As canoas de madeira são a marca dos caiçaras

Crianças e adolescentes aprendem a surfar desde cedo

O principal acesso a comunidade é via barco: tudo chega pelo mar desde material de construção até eletrodomésticos

um rio serve de ponto de atracação dos barcos

Senhor Benedito com seus 86 anos de Bonete 

Um dos poucos pontos comerciais da comunidade

Crianças e adolescentes aprendem a surfar desde cedo

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