Aves do paraíso

Pesquisadora de aves percorreu cinco ilhas brasileiras para entender as relações destes animais com o meio ambiente.

Texto: Gualter Pedrini  Fotos:  Dr. Patricia Mancini

Por do sol no Atol das Rocas  - FOTO: Patricia L. Mancini - 2010

   Antes mesmo dos primeiros raios de sol, elas vasculham a areia com seus bicos finos. Olhos fixos na areia, as garças só levantam a cabeça quando pressentem alguma ameaça. Um grupo de biguás empoleiram em uma canoa abandonada no meio do mangue, com suas asas abertas, encaram o amanhecer.  

 

   Dentre as mais de 10 mil espécies de aves conhecidas, apenas 3% adaptaram-se aos ecossistemas marinhos. Uma porcentagem baixa de animais, caso se leve em consideração o potencial de alimento disponível nos oceanos. No entanto, cresceu o número de pesquisas que analisam estes animais como indicadores das características oceanográficas.

 

   Devido à relação entre as aves marinhas e os estoques pesqueiros, estudos com esses animais permitem a monitorização dos ecossistemas marinhos frente a fatores como a mudança climática e a sobrepesca.  Assim, o conhecimento detalhado das características e relações destes animais com o meio são essenciais para que planos de proteção e conservação costeira sejam melhor delineados e efetivados.

Trinta-réis-de-rocas (Onychoprion fuscatus) FOTO: Patricia Mancini

   Fragatas e atobás costumam regurgitar o alimento parcialmente digerido em resposta à aproximação de uma ameaça, seja um predador ou um pesquisador. Outras espécies como as gaivotas, os biguás e os trinta-réis costumam regurgitar pelotas, que são restos de alimento não digeridos, como ossos, espinhos, etc.. A análise deste material regurgitado fornece uma boa indicação da diversidade e abundância de peixes e outros animais nas proximidades, bem como informações sobre a cadeia alimentar e as relações entre as aves, sejam elas da mesma espécie ou diferentes. Esse conjunto de interações são denominadas de relações tróficas e permitem entender, por exemplo, quais fatores que levam uma população de aves a diminuir de tamanho ou entrar em extinção. 

 

   Para isso, utilizam-se tecnologias recentes, como dispositivos GPS e análise de isótopos estáveis, capazes de identificar onde as aves vão se alimentar e o que comem e a sua posição na cadeia alimentar. Essas informações são importantes para o monitoramento dos ecossistemas marinhos, pois podem alertar sobre mudanças na composição da fauna de um determinado ambiente.

 

   Consciente da importância destes animais nos ecossistemas marinhos, a pesquisadora Patrícia Luciano Mancini, Doutora em Oceanografia Biológica pelada Universidade Federal do Rio Grande (FURG), sob a orientação do Prof. Dr. Leandro Bugoni, investigou as relações tróficas de comunidades de aves que se reproduzem em cinco ilhas oceânicas no Brasil: Arquipélagos de São Pedro e São Paulo, Fernando de Noronha, Abrolhos, Ilha da Trindade e Atol das Rocas.

“Na minha tese de doutorado, testamos algumas hipóteses ecológicas amplamente estudadas, como a Teoria da Exclusão Competitiva (Lei de Gause). Essa teoria prediz que os nichos ecológicos são exclusivos para cada espécie, e para que duas ou mais delas coexistam num mesmo habitat, é necessário que os seus nichos tenham características diferentes”, comenta a pesquisadora.

Doutora Patrica Mancini - Atol das Rocas

   O crescimento populacional de qualquer espécie é limitado por fatores como a temperatura do ambiente, o tamanho das presas que consegue ingerir por conta da abertura do bico ou mesmo a distância que a ave é capaz de voar afastando-se da terra firme. Se esses fatores não forem favoráveis a uma determinada espécie de aves, o seu crescimento populacional ficará restrito.

   Em seu estudo, Patrícia Mancini assumiu que alguns  fatores sobrepõem-se, mas o que permitia que diversas espécies convivessem na mesma ilha era a capacidade de explorarem os recursos disponíveis de maneira distinta e não competitiva:

“Aves maiores se alimentam de presas de maior tamanho e aves menores de presas menores. Dependendo da espécie, a ave explora os recursos de maneiras diferentes, sendo que algumas capturam as presas na superfície dos oceanos e outras mergulham em diferentes profundidades para capturar diferentes presas. Assim, evita-se ou se reduz a competição por alimento entre diferentes espécies, pois elas exploram diferentes nichos tróficos, o que vai de acordo com o Teoria da Exclusão Competitiva”, afirma a pesquisadora

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As Aves do Paraíso: Atobás, fragatas, viuvinhas tomam o céu de 5 ilhas oceânicas paradisíacas. Fotos: Patrica Mancini

   Como mencionado anteriormente, outro ponto importante no estudo da dieta de aves por longos períodos é possibilidade de se mensurar a mudança das espécies de peixes mais abundantes em determinado local. A pesquisa da Doutora mostrou que, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, ocorreram mudanças na composição das espécies de peixes voadores presentes na dieta dos atobás-marrons, comparado-se a dois estudos da década de 90 e outro realizado em 2010.

   A relação com a atividade pesqueira foi registrada em diversos níveis. Os barcos de pesca procuram o frenesi alimentar das aves para poder lançar suas redes de captura. Na pesca do espinhel, no entanto, as aves (albatrozes e petréis) tendem a seguir as embarcações para se alimentarem das iscas lançadas para grandes peixes como tubarões e atuns. Quando tentam roubar as iscas, muitas vezes engolem o anzol e são arrastadas para debaixo da água e morrem afogadas.

ASSISTA O VÍDEO:

 

Esse vídeo foi feito pela  Chefe da Unidade de Conservação Federal do Atol das Rocas -Maurizélia de Brito Silva (ICMBIO/MMA), a Zélia Brito, neste posto desde de março de 1985 até o momento. Ele mostra uma viuvinha zelando pelo seu ovo.

 

Vale lembrar que o Atol das Rocas foi  a primeira Unidade de Conservação marinha criada no Brasil, em 05 de junho de 1979. Está localizada a 144 milhas náuticas da costa do RN e 80 milhas do Arquipélago de Fernando de Noronha-PE

 

MAIS INFORMAÇÕES:

 - Patrícia Luciano Mancini, Ph.D.

Pós doutoranda, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Socioambiental (NUPEM)

Av. São José do Barreto 764, 27965-045, Macaé, RJ, Brasil

patmancinibr@yahoo.com.br

 

Atualmente Patrícia e sua aluna Emilia Emanuelle Motta Valim, graduanda em Ciências Biológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/NUPEM), desenvolvem um estudo com os atobás-marrons no Arquipélago de Santana em Macaé, RJ, com o objetivo de verificar diferenças na alimentação das aves entre os diferentes estágios reprodutivos (incubação vs. criação dos filhote) entre machos e fêmeas. Além disso, elas pretendem analisar a importancia de peixes demersais, oriundos de descartes de pesca de arrasto, na dieta das aves e com isso monitorá-las e usá-las como potenciais indicadoras da pesca ilegal durante o período de defeso do camarão. Essa pesquisa esta inserida no Projeto Costões Rochosos: Ecologia, Impactos e Conservação nas Regiões dos Lagos e Norte Fluminense, financiada pelo FUNBIO para atender às obrigações compensatórias do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a empresa Chevron Brasil e o Ministério Público Federal/RJ, com a interveniência da Agência Nacional de Petróleo – ANP e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA.

 

 

│Artigo│RELAÇÕES TRÓFICAS DE AVES MARINHAS TROPICAIS EM ILHAS OCÊANICAS DO BRASIL

│Artigo│Breeding seabird populations in Brazilian oceanic islands: Historical review, update and a call for census standardization

│Artigo Resources partitioning by seabirds and their relationship with other consumers at and around a small tropical archipelago.

│Artigo│Role of body size in shaping the trophic structure of tropical seabird communities.

Veja Também:

|ARTIGO|

A pesca excessiva e desordenada ainda é a principal ameaça à existência de 90% destes peixes.

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