Araçá: vida e caos em meio à lama

Da Lama para seu Prato

        

      Quando a maré sobe, as coletas do dia terminam e os pesquisadores retornam ao Centro de Biologia Marinha (CEBIMar), instituto especializado em Biologia Marinha da Universidade de São Paulo. Em seus laboratórios, eles passarão o restante do dia peneirando areia e lama atrás de minúsculos seres que surgem nas malhas milimétricas. Um trabalho penoso de coleta e identificação, que pode render a descoberta de novas espécies e dados sobre a cadeia alimentar da região.

        A Professora Cecília Amaral é a pesquisadora responsável pelo Biota-Araçá, bem como a coordenadora dos estudos envolvendo os bentos. Como alguns destes animais vivem entre o solo, além da coleta com os canos de PVC na maré baixa, os pesquisadores utilizam barcos equipados de dragas e aparelhos  de coleta do substrato da baía que permanece sempre submerso.

Como o multicorer, um coletor que possui uma armação de metal com braços articulados e três tubos de acrílico com tampas. Esse conjunto desce até o fundo, com os tubos a frente que penetram no sedimento e as tampas que são fechadas assim que o equipamento é suspenso. No barco parte a amostra já é peneirada, o restante é analisado no CEBIMar. 

Os poliquetas são um exemplo dos animais ali encontrados. A olho nú, se assemelham a pequenas minhocas, mas no microscópio revelam diferentes formas e cores. No Araçá, já foram registradas mais de 200 espécies desses animais, que participam de até 80% da alimentação de peixes de interesse comercial, como o linguado e a corvina.  Dentre as descobertas, houve o registro inédito da poliqueta Arabella aracaensis, bem como a Eunice sebastiani que alcança até 2m de comprimento e tem registro confirmado apenas no Estado de São Paulo.

         Mesmo com elevada degradação ambiental, os peixes ainda sobrevivem na baía. O Projeto avaliou que as praias do Araçá foram ponto de chegada de 237 viagens pesqueiras, entre 2012 e 2013, que descarregaram 4.560 quilos de peixes, moluscos e crustáceos. Na grande maioria são embarcações pequenas ou tradicionais canoas caiçaras vindas de comunidades mais isoladas de Ilhabela, como as do Bonete e Castelhanos, que usam as águas mais calmas dessa enseada para descarregar seu pescado a ser comercializado e retornar com itens recém-comprados, que vão desde eletrodomésticos até materiais de construção. Para esses pescadores, a Baía é o único porto operacional para o continente, como o senhor Benedito, com mais de 86 anos de mar, que atravessava o Canal de São Sebastião a remo. 

         Outro trabalho minucioso, que conta com a ajuda dos pescadores, é o levantamento de todas as variedades de peixes e sua abundância nas águas da Baía. "Até agora encontramos 106 espécies, a maioria cresce aqui, mas depois de uma certa idade sai do Araçá", explica a Professora Carmen Lúcia Del Bianco Rossi, especialista do Instituto Oceonográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), com grande experiência em ecologia dos peixes marinhos, estruturas de comunidades e dinâmica das populações.

         Dentre os trabalhos que ela coordena no Biota-Araçá, podemos citar a analise da diversidade dos peixes da Baía, idenficação da fase reprodutiva, as fases de crescimento e a composição alimentar. E para coleta destas espécies, vários artifícios de pesca foram utilizados com a ajuda dos pescadores locais: rede de arrasto, rede de espera, tarrafa, covos e linha-e-anzol. Dentre as espécies marinhas, que passam parte de seu ciclo de vida na Baía do Araçá, temos a Sardinha Verdadeira (Sardinella brasiliensis), a carapeba (Eucinostomus argenteus) e o peixe-rei (Atherinella brasiliensis). Exemplos de animais de importância para moradores que vivem da pesca.

       O estudo desta fauna será fundamental para sugerir ações visando o uso sustentável dos bens de serviço, em particular dos recursos pesqueiros locais, bem como a elaboração de um plano de desenvolvimento para a região.

 

 

Entre a  Terra e o Mar

      Em meio ao som frenético do Porto de São Sebastião, tento entender as orientações da Professora Yara Schaeffer-Novelli,  que andava por entre as pedras e o lixo com desenvoltura. Graduada em História Natural, Mestre em Oceanografia, Doutora em Zoologia e Livre Docente do Instituto Oceanográfico e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental na USP, desde 1998. É raro encontrar um trabalho científico nacional sobre manguezal que pelo menos não cite um artigo dela.

         Estávamos percorrendo o entroncamento que limita o Araçá e o porto, uma parede em declive de blocos de pedras, criada no último aterro de ampliação. Encontro Yara sentada em uma área mais limpa de entulho: "Esses são meus bebês". Com os braços abertos envolvendo suas crias, ela me apresenta as sementes da árvore mangue vermelho que havia plantado na tarde anterior com uma técnica inédita.   As sementes já germinadas, denominadas de propágulos, foram selecionadas de manguezais situados em Cananéia, município distante 400 km de São Sebastião e passaram por todo um processo de conservação para aguardar os tramites burocrático pois, mesmo sendo grande especialista na área, ela necessita de autorização de diversos órgãos para plantar uma árvore de mangue.

          No Araçá, um minucioso estudo escolheu os locais apropriados para o plantio, pois cada espécie de mangue desenvolve melhor em solos com características distintas. No caso de um terreno acidentado e com rochas, o Mangue Vermelho é o que se adapta.

         "Estamos reabilitando o que já existiu. Das dezenas que plantamos, se apenas uma vingar e mudar um pouco essa paisagem, será um símbolo de esperança. É o plantio de mangue como medida de conservação", explica a senhora de voz grossa e porte físico de origem germânica. Ela assume que é difícil recriar condições ideais para uma semente de mangue vingar, o que torna essas árvores ainda mais valiosas.

      Ao contrário de outros vegetais, as sementes do mangue germinam ainda presas à planta mãe, formando o propágulo que cai no solo e é levado pela água até se fixar em um local que contenha a oxigenação certa bem como outras condições adequadas de hidrodinâmica e solo. Para recriar esses fatores ela usa mangueiras, varetas e fios. Os outros objetivos dos seus estudos são analisar a ecologia histórica da paisagem da Baía e suas relações com as ações antrópicas, bem como a diversidade genética vegetal. 

         Apesar de sermos o país com a maior extensão de manguezais, mais de 6000 km dos quase 8000 km de litoral (segundo dados da WWF de 1996), historicamente o ecossistema é visto, de forma equivocada, como um ambiente poluído e de baixo valor comercial e ambiental. Isso fez com que as indústrias canavieira, imobiliária, portuária e atividades de aquicultura não levassem em conta seu devido manejo.

      "O manguezal é uma mãe, é a união entre o mar e a terra, responsável por uma complexa cadeia alimentar que influencia em muito os oceanos e nossa vida", comenta a Professora. Ela ainda cita estimativas realizadas junto à pesca artesanal, que apontam um decréscimo anual de até 500 kg de pescado por hectare de manguezal desmatado.

     Sentado naquelas rochas, recordo dos jornais abordando os novos planos de ampliação do Porto. Em julho de 2014, a Justiça Federal suspendeu a licença prévia emitida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) para a expansão portuária em São Sebastião.  Na liminar, o juiz Ricardo de Castro Nascimento, demonstrou preocupação com os riscos ao ecossistema local, dadas as intenções de se aterrar quase toda a Baía do Araçá, a qual faz parte de duas Áreas de Proteção Ambiental (APA): Área de Proteção Ambiental do Litoral Norte do Estado de São Paulo e da Área de Proteção Ambiental Municipal de Alcatrazes. Desde então, algumas audiências de conciliação já ocorreram com representantes tanto da Companhia Docas de São Sebastião, como de lideranças de diversas entidades da sociedade civil, as quais são unanimes em se opor às obras.

         Em paralelo a esses calorosos debates, os pesquisadores se esforçam em um projeto pioneiro. Mais que um extenso inventário de espécies, eles buscam a valoração da Baía do Araçá pela comunidade científica e pela sociedade. Valores que extrapolam os ganhos pessoais e as cifras monetárias.

Mais Informações:

| SITE | Projeto BIOTA-ARACÁ/FAPESP - http://www.biota-araca.org/

| ARTIGO | - Zacagnini Amaral, Antonia Cecília, Esteves Migotto, Alvaro, Turra, Alexander, Schaeffer-Novelli, Yara, Araçá: biodiversidade, impactos e ameaças. Biota Neotropica [en linea] 2010.

Foto e texto: Gualter Pedrini
Originalmente publicada na revista Horizonte Geográfico (ed 156)

Cientistas correm contra o tempo para tentar salvar ecossistemas em uma baía no litoral paulista

Matéria publicada originalmente na Revista Planeta n°156 (2015)

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       Manhã escura de inverno, nuvens carregadas. Antes dos primeiros raios de sol, um grupo de biólogos soma à paisagem de barcos abandonados e pescadores de mariscos, na praia. Com botas de neoprene, pás e sacos plásticos, começam a coletar amostras do solo, até que surge Cecília Amaral, professora do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas desde 1980. Ela olha por cima dos óculos e adverte: "Menino, cuidado onde pisa". Orquestra os jovens pesquisadores com zelo quase maternal; ao mesmo tempo em que exige agasalho dos pupilos nos dias frios, não deixa ninguém se esquecer de qual hora a maré irá subir.

Soma-se ao seu currículo importantes trabalhos de analise da  Biodiversidade Marinha.  Como o estudo da Biodiversidade Bentônica Marinha no Estado de São Paulo, projeto integrante do Biota-FAPESP, um programa criado oficialmente em 1999 como resultado do esforço de um grupo de pesquisadores mais a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo(FAPESP). Juntos sensibilizaram a comunidade científica para a necessidade de ações concretas para a implementação da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), assinada pelo Brasil na ECO-92. Hoje conta com mais de 1200 profissionais, entre pesquisadores e estudantes, mais 150 colaboradores de outros estados brasileiros e outros 80 do exterior.

 

       Estamos hoje no litoral norte de São Paulo, na cidade de São Sebastião, em um conjunto de quatro praias que formam a Baía do Araçá. Suas areias presenciam uma dança diária regida pelo vai e vem das marés, que em poucas horas inundam toda a paisagem e influenciam o ciclo de vida local. Em certos horários, que variam com o passar dos dias e as fases da lua, dois terços da baía ficam expostos na maré baixa e podem ser frequentados por marisqueiros revirando a areia ainda molhada, por pescadores com suas redes e aves que fisgam peixes presos em pequenas poças formadas pelo recuo das ondas.

        A água deixa para trás animais como estrelas, crustáceos, moluscos e rochas que abrigam diversas espécies em sua superfície. É a condição ideal para os biólogos coletarem amostras em locais que permanecem submersos a maior parte do dia. Com canos de PVC perfuram a areia a procura de pequenos seres, como poliquetas, moluscos, crustáceos e equinodermos, que são classificados como bentos pois vivem junto ao solo, fixos a ele ou não.

        Foi a variação do nível do mar que propiciou a formação do manguezal na Baía. Além de estar adaptada à água salina, a árvore do mangue respira graças ao movimento das águas e também recebe seus sedimentos, que formam um solo lamoso rico em matéria orgânica e fauna microscópica e macroscópica, adaptados a um substrato periodicamente inundado e com grandes variações de salinidade.

 

        Essa teia complexa desempenha funções ecológicas importantes, uma vez que sua vegetação apresenta uma produtividade primária elevada (taxa de conversão de energia solar em biomassa), que após a decomposição, constitui importante fonte de nutrientes em águas costeiras.

 

      Como é uma região de águas calmas, rasas e rica em alimentos, apresenta condições propícias para reprodução e desenvolvimento de formas jovens tanto de espécies características desses ambientes, bem como outros animais que acabam migrando para outras áreas, ambos de importância econômica na pesca e na subsistência das populações que o margeiam. Como exemplos temos siris, camarões e peixes no meio aquático, no sedimento observam-se anelídeos, moluscos e os caranguejos.

As cores e formas do mangue - aves, invertebrados e comunidade de pescadores  ameaçados pelo plano de expanção do porto

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Conservação vs Crescimento - garça branca a procura de invertebrados junto a lama. Ao fundo as estruturas do porto

A triste História do Araçá

        

          Até 1936, as árvores de mangue recobriam quase todo Araçá. Com a construção do primeiro Porto de São Sebastião, nesse mesmo ano, a circulação natural das águas foi alterada, o que provocou o assoreamento das praias em frente ao centro histórico. Com as expansões portuárias nas décadas seguintes, a orla da Baía foi retalhada e hoje já não possui ligação com as demais praias do município.

         Surgiram outros projetos para aterrar o restante da orla, todos vetados pela Secretaria do Meio Ambiente, frente à intensa pressão popular. A defesa do mangue, no entanto, não impediu a instalação de um emissário submarino de esgoto pela Companhia de Saneamento Básico do Estado, que atravessou diagonalmente a baía, levantando grande quantidade de cascalho e areia, o que acelerou o processo de soterramento do manguezal e contaminou suas águas com resíduos domésticos que são lançados em um ponto próximo a costa.

         Com o surgimento de dois bairros, o da Topolândia e Varadouro que abrangem toda a costeira mais a construção de dezenas de moradias irregulares com efluentes de esgoto a céu aberto e depósitos de lixo, fica impossível reconhecer a baía das fotos na década de 1940. Tamanha degradação impulsionou, em 2011, uma declaração do então prefeito de São Sebastião, Ernane Primazzi (PSC), em que afirmava não haver mais vida no Araçá.

A afirmação ia contra a opinião de pesquisadores que há mais de 60 anos usam a região como campo de estudos para trabalhos científicos, com registros de mais de 700 espécies, sendo 34 descritas como novas para a ciência e outras 9 ameaçadas de extinção, como a Asterina stellifera e Astropecten brasiliensis que são dois exemplos de estrelas-do-mar que pertencem a lista de animais em risco no país.

         Dentre as novas descobertas, possuímos exemplares de Poríferas, Crustáceos, Poliquetas e Ascidias que já encontram-se depositados em diferentes museus nacionais e estrangeiros, como o Museu da Universidade de São Paulo, Museu de Nacional do Rio de Janeiro e o Smithsonian National Museum of Natural History (Washington, DC, USA).   Como o descobrimento de novas espécies ainda continua ocorrendo, visualiza-se a confirmação da importância ambiental e científica da região.

         Diante do atestado de óbito de uma área tão icônica, pesquisadores de algumas das mais importantes Universidades do país, como USP e UNICAMP, montaram um projeto de estudos para fornecer informações que direcionassem as ações de gestão pública na baía. Em 2012 receberam a aprovação e o financiamento da FAPESP, incluindo-o no Programa Biota, e assim surgia o Biota-Araça, que hoje conta com mais de 170 pesquisadores de mais de 30 instituições. Mais do que um inventário de espécies, as diferentes frentes de trabalho são interligadas para produzir resultados que englobam as áreas da física, química, biologia e ciências sociais.

         Para tanto, novas formas de pesquisa estão sendo empregadas desde o estudo de microorganismos quanto de grandes mamíferos, bem como suas relações com o ambiente e os valores da Baía para os moradores. Esses trabalhos irão gerar um banco de dados integrados e um modelo informatizado da Baía, o qual poderá estimar possíveis consequências de qualquer fator que altere a atual dinâmica existente no Araçá.

         "Sempre me perguntam se existe outra área que poderia servir como campo de estudo. Já percorri todo o litoral paulista e posso dizer que não há lugar parecido com Araçá. É o nosso laboratório a céu aberto, pois aqui possuímos todos os grupos zoológicos, manguezal, ciclos de maré. Tamanha complexidade em um espaço relativamente reduzido, que já gerou 127 artigos científicos com a analise de apenas um terço da Baía nessas últimas décadas", afirma a Professora Cecília Amaral, enquanto numera as amostras coletadas naquele dia.

Programa Biota Araçá - FAPESP - mais de 170 pesquisadores de mais de 30 universidades realizaram um extenso inventários em 12 frentes de trabalho

Ciclo do mangue - as diferentes fases do mangue vermelho: Flor, Propágulo e a técnica de reflorestamento junto às rochas até a árvore adulta

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A pesca excessiva e desordenada ainda é a principal ameaça à existência de 90% destes peixes.

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Se você for um dos sortudos a encontrar um cavalo-marinho ou um peixe-cachimbo, lembre-se de que é importante seguir as regras básicas do bom mergulhador e algumas orientações para não prejudicar ainda mais esses fantásticos seres.

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